CIRCUITO E CURTO-CIRCUITO EM FILOSOFIA: PALESTRAS FILOSÓFICAS SOBRE OS MAIS VARIADOS TEMAS, COM DEBATES

 

Será que algum dia, em alguma época, a filosofia deixou de ser um saber atual e útil?


Será que se pode descartar um saber milenar, tão questionador quanto apropriado, independente de quem sejam as pessoas – homens, mulheres, solteiros, casados, divorciados, pais, filhos –, da sua condição – econômica, cultural, política, social, sexual, religiosa –, da sua idade - crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos – e da sua nacionalidade ou cultura?

Se deslocarmos o nosso olhar para o mundo de hoje por certo prisma, perceberemos o quanto a filosofia é urgente. O filósofo C. Delacampagne focou seu olhar e indicou as seguintes tendências no mundo atual:

  1. O ressurgimento nos cantos do planeta do racismo e do nacionalismo étnico, que formam os principais ingredientes das ideologias totalitárias que quase levaram o mundo no século XX à destruição total.
  2. O reaparecimento dos fundamentalismos religiosos de toda ordem, por definição hostil à liberdade de pensamento.
  3. A proliferação das seitas.
  4. A explosão geral de credulidade e de irracionalismo.
  5. O risco que constitui a difusão pela mídia audiovisual de ideias estandardizadas que anestesiam o espírito crítico.
  6. Todos estes fenômenos trazem um grande temor: o triunfo em escala mundial de uma verdadeira regressão obscurantista.

E a estes acrescento:

  1. O individualismo egoísta e consumista que embrutece a sensibilidade e esgota a real possibilidade de um contrato social que seja norteado pela ideia do bem comum.
  2. A crise ambiental, a fome estrutural, a miséria e a exaustão do atual modo de produzir sustento e riquezas que oscila entre o essencial e o supérfluo, manipulando desejos e sonhos, enquanto enfraquece e empobrece o Estado, que não produz nem oferece o essencial a uma enorme parcela da população.
  3. Em decorrência dos itens acima, a regulação global do desejo para o consumo não-sustentável, supérfluo ou, mesmo, irrealizável para a maioria das pessoas, que, quanto mais alienadas, mais desejam e menos são felizes.

Então, C. Delacampagne pergunta-nos: “qual o lugar que a filosofia ocuparia para fazer frente a essa situação?”

Usarei como resposta o pensamento do consagrado historiador da filosofia, François Châtelet:

- Filosofar surge como uma resposta a uma situação histórica insustentável em que imperam, em meio à desordem, a ignorância, a mentira, a injustiça e a violência.

Uma vez que estas questões são absolutamente relevantes para pessoas sérias e não-alienadas, trago esta pergunta:

- O que é a filosofia então? É a tentativa de enxergar um palmo diante do nariz, o que não é tão fácil nem tão inútil quanto muitos pensam.

Não filosofar é negar o que somos: espécie livre para pensar permanentemente na própria existência - quem somos, o que queremos, o que devemos, o que podemos, o que construímos, o que destruímos, o que desejamos.
 
É um grande perigo para nós, humanos, filosofarmos pouco, lermos pouco e conhecermos pouco, enfeitiçados numa alienação cômoda amparada por uma felicidade frágil e pueril ou, mesmo, egoísta.

Não é à toa que percebo nos meus atendimentos clínicos em consultório o quanto as pessoas se sentem perdidas, ao mesmo tempo em que desfrutam dos inúmeros avanços científicos, tecnológicos e de renda, que, em tese, melhorariam suas condições de vida. No entanto, expressam o mal-estar que sentem no dia-a-dia, algumas com muito sofrimento. Pessoas de todos os tipos e idades:

  • Jovens, pais, executivos, líderes, gestores, profissionais, técnicos, tecnólogos, gente simples desprovida da educação básica, adolescentes, idosos e, inclusive, crianças.
  • O que há em comum entre elas, embora vivenciem situações diferentes? A falta de sentido no que fazem, no que são, no que querem, no que perderam, nas escolhas que fizeram, na ausência de um sistema de referência para pensar, nos sonhos que se foram, na forma como são tratadas, nas coisas que não deram certo, nos erros e culpas que carregam, na sociabilidade malconstruída, no tempo perdido, nas famílias destroçadas, na violência visível e invisível, na falta de diálogo e credulidade com o outro, na confiança rompida, nos amores que se foram, nos filhos que adoecem psicologicamente, na solidão em meio à multidão, no sucesso profissional em meio ao fracasso pessoal, na realização do desejo consumista que prometeu felicidade imediata, mas que, junto com a frustração, trouxe uma dependência doentia, na morte que apareceu sem dar aviso prévio de entrada.

Aparentemente, todos na mesma vala comum. Um mal-estar generalizado com recurso pessoal mínimo ou esgotado para superarem e transformarem a situação em que vivem. E que recurso seria esse?

O NEGE, ao organizar os encontros “CIRCUITO E CURTO-CIRCUITO EM FILOSOFIA”, sobre os mais variados temas, para empresários, profissionais, jovens, famílias, líderes, idosos, adolescentes e crianças, tem como objetivo que os participantes saibam não apenas o que os filósofos pensaram com relação às  mais diversas questões da vida e da sociedade, mas também que aprendam o modo ou o procedimento mental e metodológico do ato e do processo de filosofar, possibilitando-lhes uma sábia autonomia crítica.

A sabedoria é o lugar por excelência que ilumina as conquistas do conhecimento humano para que sejam utilizadas em direção ao bem geral e para novos estágios evolutivos sustentáveis e mais justos de existência da vida humana e do planeta.

Gostaria, então, de terminar com a pergunta que iniciei: será que algum dia, em alguma época, a filosofia deixou de ser um saber atual e útil?

* Delacampagne, C. História da Filosofia no século XX, Rio de Janeiro: Zahar, 1997, pg. 287.

 

 

 

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